9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 12.9.12

1. ASSIM SER A TEV DA SUA CASA
2. D PARA CONFIAR NOS SELOS AMBIENTAIS?

1. ASSIM SER A TEV DA SUA CASA

No futuro prximo, aparelhos tero tela transparente, controle pelo olhar, nitidez sem precedentes e sistema que adapta a imagem para quem tem problemas de viso 
Juliana Tiraboschi

VISUAL CLEAN - Depois das telas cada vez mais finas, a transparncia vira a nova aposta dos fabricantes 
 
Se a tentao de trocar o televisor for grande, vale a pena esperar um pouco. Nos prximos meses e anos, chegam ao mercado aparelhos com tela transparente, totalmente conectados, controlados por meio do olhar e at com dispositivos que adaptam a imagem a alguns tipos de deficincia visual. Esse  o futuro prenunciado na ltima edio da IFA, tradicional feira anual de eletrnicos em Berlim, encerrada na quarta-feira 5. Uma das empresas que mais impressionaram os visitantes foi a chinesa Haier, que apresentou a sua tev de tela transparente. O modelo no  totalmente translcido, como alguns conceitos desenvolvidos por designers, mas representa um avano na viabilidade comercial dessa tecnologia. Para a companhia, talvez o aparelho faa uma escala no mundo corporativo antes de entrar de vez na casa dos consumidores. Pode ser usado em vitrines, por exemplo, para exibir imagens e informaes no vidro, ao mesmo tempo que deixa o consumidor visualizar os produtos expostos atrs da tela. Outra novidade da Haier  o comando por olhar. Vai ser possvel mudar de canal, alterar o volume e consultar menus apenas movendo os olhos. O sistema funciona com um sensor posicionado na frente do usurio. Para selecionar a funo desejada, basta olhar para um ponto determinado na tela e piscar firmemente.
 
Enquanto essas tecnologias ainda carecem de um pouco mais de pesquisa antes de chegar ao consumidor final, outra j est disponvel em lojas do Hemisfrio Norte. Trata-se das tevs de ultradefinio, chamadas 4K. As telas tm 3.840 x 2.160 pixels de resoluo, quatro vezes mais do que as Full HD. A Toshiba j havia lanado uma tev 4K de 55 polegadas, em dezembro do ano passado. Agora, fabricantes como Sony e LG tambm entraram na briga e apresentaram na IFA verses com impressionantes 84 polegadas. O preo tambm impressiona: vai de US$ 22 mil  ou quase R$ 45 mil (LG)  a US$ 31 mil, o equivalente a R$ 63 mil (Sony).
 
TUDO AGORA - Tev transforma celular em controle remoto e facilita interaes
 
Mas de nada adianta ter uma tev de altssima qualidade em casa e enxergar tudo fora de foco. O cientista da computao brasileiro Vitor Pamplona desenvolveu, junto com o Instituto de Informtica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em parceria com a Universidade de Purdue e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA), um sistema que corrige as imagens automaticamente para quem tem algum desvio de viso, como miopia ou hipermetropia (leia quadro). Qualquer pessoa que usa culos j deve ter desejado uma tev como essa, diz Pamplona. Alm dos televisores, essa tecnologia pode, futuramente, ser aplicada a relgios, celulares e painis de carro.
 
Outra tendncia no mercado de televisores  a integrao com outros aparelhos. Segundo a empresa de entretenimento visual TP Vision, parceira da Philips, assistir  tev  uma atividade passiva, mas muitos espectadores querem dividir suas experincias nas redes sociais ou acessar contedos adicionais enquanto assistem a um programa. A chave  conectar cada vez mais a tev aos smartphones e tablets. A Philips j tem um aplicativo, o MyRemote, que transforma o celular em um controle remoto para tevs da linha Smart. Com ele,  possvel transmitir imagens, vdeos e msicas dos dispositivos mveis para a televiso em poucos cliques. At o fim do ano a TP Vision vai lanar um novo app para possibilitar a transferncia de informao da tev para o tablet usando a funo de arrastar e soltar, o que torna o processo mais intuitivo.

CINEMA - Modelo 4K exibe imagens quatro vezes mais ntidas do que as tevs Full HD
 
Assim como o cinema  que muitos consideraram que ela destruiria , a televiso ter uma vida longa. O esforo e as novidades mostradas pelos fabricantes na feira alem so uma aposta de que, por mais avanados que sejam os dispositivos mveis, as vendas de televisores, e consequentemente de sofs, esto garantidas por mais algumas dcadas.


2. D PARA CONFIAR NOS SELOS AMBIENTAIS?

A necessidade das empresas de vender uma imagem ligada  causa ambiental alimenta a indstria das certificaes ecolgicas, que cresce sem parar. Aprenda a separar o joio do trigo
Larissa Veloso e Juliana Tiraboschi

Os departamentos de marketing das empresas sabem que hoje h um terceiro elemento na relao custo/benefcio: o ambiente. Aquelas com produtos e imagem associados  preservao do planeta tm muito mais chances de vitaminar a prpria sade financeira. H as que entram na competio ambiental de forma responsvel e comprometida. Por outro lado, existem empresas atrs de atalhos que acelerem o processo. Isso explica em parte a proliferao de selos que, em tese, so atestados de correo ambiental.
 
Impressos nas embalagens, alguns selos so de fato uma ttica comercial, com pouca ou nenhuma ao concreta para preservar o ambiente ou diminuir o impacto que a produo gera em rios e florestas.  a certificao por auto-declarao, em que a prpria empresa afirma que seu produto  sustentvel, diz a secretria-executiva no Brasil do conselho que formula o selo FSC (Forest Stewardship Council), Fabola Zerbini.  claro que existem aqueles que fazem isso de maneira sria. Mas  diferente do rigor da certificao por terceira parte, quando uma instituio independente audita os fabricantes, completa.
 
Quem age de m-f aposta na dificuldade de interpretao dos consumidores. Temos um exemplo claro. Fizemos uma pesquisa para saber o que as pessoas entendiam sobre as tabelas nutricionais na embalagem dos alimentos. A concluso foi de que 60% no compreendiam o que as informaes significavam, relata Joo Paulo Amaral, pesquisador em consumo sustentvel do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Por outro lado, h tambm exemplos positivos, como o selo Procel, que certifica se um aparelho eltrico consome pouca ou muita energia.  um mtodo de cores que funciona muito bem. A pessoa olha e j sabe que o indicador A - verde,  melhor do que o E - vermelho. Hoje essas etiquetas so mais um critrio de deciso na compra de uma geladeira ou mquina de lavar, constata Amaral.

Na opinio do especialista,  preciso facilitar a visualizao para o consumidor, alm de fazer um trabalho de divulgao das certificaes mais confiveis (conhea as principais no quadro abaixo). O vice-presidente da ONG americana Green Building Council  que concede o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) , Scot Horst, concorda com esse pensamento e vai alm. Para ele, tambm  preciso tornar claro como um determinado selo pode impulsionar mudanas reais, como manter mais florestas em p, por exemplo. Raciocnios como esse levaram a Green Building Council a rever alguns de seus critrios  considerados frouxos  na hora de conceder certificados a uma construo.
 
Mas, na opinio de Horst, pressionar as empresas no  o bastante. O consumidor tem de entrar na briga. A questo : as pessoas realmente se importam?, questiona. Os engajados podem e devem ir atrs de informao. Gosto de ir a lugares que se dizem verdes e perguntar por que se denominam assim. Isso desafia as pessoas a refletir se realmente conhecem o que vendem, diz. Ou seja, em uma simples conversa d para ter uma ideia se o estabelecimento merece o selo que ostenta na porta.

O Brasil tem um enorme potencial para investir em construes sustentveis

Sustentabilidade est na moda. Mas, para no se perder em meio a tantos selos ambientais,  preciso conhecer o trabalho das organizaes envolvidas na emisso desses certificados. Em entrevista  ISTO, Scot Horst, vice-presidente do LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), selo ambiental para construes sustentveis emitido pela ONG americana Green Building Council, falou sobre mudanas nos critrios do selo e como o consumidor pode ser mais exigente. Horst est no Brasil para a 3a edio da Conferncia Greenbuilding Brasil, que acontece em So Paulo entre os dias 11 e 13 de setembro.
 
ISTO  Por que vir falar sobre construes sustentveis no Brasil? 
 
Scot Horst - A Green Building comeou nos Estados Unidos, mas hoje 40% dos pedidos de registro que recebemos so de fora do pas. Estamos focando mais em Brasil, China, Oriente Mdio e Europa, porque  dessas regies que esto vindo grande parte dos pedidos de registro
 
ISTO - A Europa tem investido em construes, mesmo com a crise econmica?
 
Scot Horst - Sim,  o mesmo que aconteceu na recesso econmica nos Estados Unidos, que comeou em 2008. Na Europa o nmero de construes novas caiu, mas aumentou a quantidade de projetos de retrofitting (nota da redao: na engenharia, retrofit significa reformar e modernizar construes antigas para colocar materiais de melhor qualidade e torn-las mais eficientes energeticamente). Uma das razes  que o retrofitting se torna mais barato a longo prazo, j que o edifcio se torna mais eficiente. E reformar  mais barato do que construir do zero. 
 
O interessante  que nossas polticas mudam no s a estrutura, mas o modo como a empresa pensa. Atitudes simples, como usar papel reciclado, fazem a diferena. E isso tambm afeta como as pessoas se comportam. Elas levam essa mentalidade para as suas casas e passam a refletir sobre o uso de recursos.
 
ISTO: Voc vem ao Brasil para falar sobre novas regras para a certificao do LEED. Elas vo ficar mais rigorosas?
 
Scot Horst - Sim. Faz parte do sistema mudar para no estagnar e continuar a crescer, e procurar as melhores prticas para empurrar as pessoas para frente. Os pases do Norte da Europa, por exemplo, j seguem prticas de construo sustentveis excelentes. Com uma certificao mais exigente, podemos comparar essas iniciativas com as de pases em desenvolvimento, como a China. 
 
 ISTO  E quais sero as principais mudanas nas regras?
 
Scot Horst - Uma das mudanas que entraro em vigor no Leed a partir de 2013  avaliar o reuso da gua no apenas para abastecimento de pias e esgoto, mas tambm para o que se chama de gua processada, como aquela usada em sistemas de refrigerao de ar condicionado ou na lavagem de utenslios de restaurantes, atividades que consomem grandes quantidades do lquido. Os requerimentos em relao  eficincia energtica tambm ficaro mais rigorosos. 
 
Outro ponto importante  o ciclo de vida dos materiais. Queremos ajudar os gerentes dos projetos a entenderem todo o processo de vida dos edifcios, saber de onde os materiais vm, quanto foi gasto de gua e energia e qual a quantidade de poluentes que foi emitida para produzi-los, e no considerar apenas o preo.
 
ISTO - Qual  o potencial que o Brasil tem para investir em construes sustentveis?
 
Scot Horst -  enorme. O Brasil j gasta menos energia do que muitos outros pases, em parte por causa do clima do pas. Agora estou no Rio de Janeiro e vejo muitos prdios com janelas abertas, por exemplo. Em Nova York voc no v isso. A Copa do Mundo e as Olimpadas sero uma tima chance de desenvolver esse potencial, de construir estdios mais conectados com a natureza, usando menos recursos.
 
ISTO  Voc conheceu algum projeto para a Copa? Algum chamou mais ateno?
 
Scot Horst  O estdio de Braslia  um dos meus favoritos. Os planos incluem um sistema de ventilao natural e um de captao de gua da chuva, que ser armazenada no subsolo e usada para irrigar o gramado. H tambm a inteno de instalar placas solares com capacidade para 2,4 megawatts na cobertura do estdio. Braslia  uma cidade feita para carros, mas a ideia  criar uma infraestrutura, como ciclovias e estacionamentos para bicicletas, para estimular o pblico a ir ao estdio pedalando. 
 
ISTO - Com a quantidade imensa de selos ambientais que existem hoje no mercado, como o consumidor pode distinguir os srios dos oportunistas?
 
Scot Horst - Concordo que a grande quantidade de selos  um problema. Nosso trabalho  tornar claro quais so os benefcios de um determinado selo e como ele pode impulsionar mudanas reais, mudar o mercado. Mas a questo : as pessoas realmente se importam em saber? Acho que muitas no se importam, a no ser que isso as afete diretamente. Por isso temos que ser mais espertos na maneira como incentivamos a sustentabilidade. 
 
ISTO - E para os que se importam, que dicas voc d?
 
Scot Horst - Primeiro, quem certifica deve ser transparente, voc deve conseguir informaes com facilidade. Outra coisa importante  saber quais so seus valores, com o que voc se importa. E questionar. Gosto de ir a lugares que se dizem verdes, como hotis, e perguntar por que se denominam assim. Isso desafia as pessoas a se perguntarem se realmente sabem do que esto falando. Se vou a um restaurante e quero comer um peixe da fauna local, por exemplo, pergunto sobre a origem do produto.
